RESENHA CRÍTICA ¹
Evellin Thamyris Fagundes Matos²
PLAZA, Julio. Arte∕Ciência: uma consciência, RARS (São
Paulo) vol.1 no.1 São Paulo, 2003.
Vieses da relação ciência/arte são descritos no artigo “Arte e ciência- uma consciência” sob o olhar de Julio Plaza González e os muitos autores citados por ele. Espanhol (1938) radicado no Brasil, doutor em semiótica pela PUC (1985) e atuante em áreas múltiplas da arte, González estruturou o texto em seis tópicos temáticos que, como um todo, compõe uma leitura densa por sua riqueza de referências histórias e teóricas.
“Arte e instituição: conflito de modelos” introduz a reflexão apresentando uma linha do tempo sobre as formas de ensino/aprendizagem da arte desde a era medieval onde os ateliês, ambientes de trabalho dos mestres, serviam como espaço de “convivência técnica” para os seus discípulos, até a contemporaneidade em que a arte, tendo adquirido um caráter mais complexo, com inserção teórica e interferência dos novos processos tecnológicos e industriais, teve suas possibilidades expandidas, portanto, surgindo a necessidade de um espaço para discussão dos saberes e práticas inerentes a ela, agora, na atmosfera acadêmica.
No tópico seguinte o autor discute sobre o conhecimento nas duas áreas em pauta. Citando Max Bense, ele diz que o conhecimento só pode ser obtido sobre o que é suficientemente determinado, como por exemplo, as coisas no mundo físico, ao contrário do que está no mundo estético, como a arte.
No geral, González reflete sobre o quanto o conhecimento na ciência, por ser alicerçado em informações semânticas, se difere do conhecimento na arte, que
preza pela informação estética. Fala-se até mesmo na impossibilidade de codificação da mesma.
Em “identidades” vê-se que a origem da arte e da ciência é semelhante, pois ambas iniciam no campo das “hipóteses”, fase da criação que se vale de pensamentos permeados por signos e, só depois, em um segundo estágio, há um distanciamento entre elas, quando os pensamentos passam a ser formulados de forma associativa.
Mas, nem só de distanciamentos vive a relação arte/ciência. No item “similaridades” o autor apresenta diversos exemplos onde a arte se apropriou da ciência e vice-versa. Cita desde inspirações estéticas na arte para aplicações científicas, como foi o caso da estrutura molecular do benzeno criada em semelhança com o “uroboros” (símbolo mítico), como também a consideração de que é necessário que o artista utilize os recursos científicos como forma de auxílio na elaboração de suas idéias. Porém, González expõe que essa via de mão dupla não possui tráfego de forma proporcional, pois a ciência, ao avesso da arte, utiliza os recursos dessa última com muito mais restrição, eliminando as possibilidades metafóricas por conta do seu compromisso com a verdade.
Partindo desse princípio, em seguida explica-se a diferença em se pesquisar e o fazer para a ciência e para a arte. Na primeira exige-se um posicionamento imparcial, impessoal e universal para que o subjetivismo seja eliminado. Já na arte há liberdade na criação e desempenho, permitindo a possibilidade de múltiplipas interpretações por parte dos receptores.
No último tópico o texto volta-se para o ambiente de aprendizagem. Corroborando com a ideia de Arhnheim sobre a eficácia no ensino da arte, González diz que antes é necessário saber que ela, apesar de seus resultados singulares, é produto de interações com outras esferas como a técnica e a cognitiva, ou seja, é um fazer interdisciplinar.
Além disso, ao contrário do pensamento apontado como “ingênuo” pelo autor, a liberdade expressiva do “artista teórico” não é leviana, é lúcida. Citando Fernando
Pessoa “a arte é a união do instinto (intuição) com a inteligência”, eis o ponto chave do texto, isso que o autor chama de “consciência”.
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¹. Resenha crítica apresentada como parte da avaliação do componente curricular "Campo das Artes" da Universidade Federal do Sul da Bahia/UFSB;
². Discente do curso Interdisciplinar em Artes da Universidade Federal do Sul da Bahia UFSB;
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